Monday, October 10, 2005

A casa dos espirros

Sentado nos bancos castanhos da casa branca, ouvi um catequista cinzento, com olhos azuis e cabelo ruivo, vestido de verde, com um livro negro nas mãos rosadas, dizer, numa quarta-feira de cinzas, entre dentes amarelos, que éramos pó e em pó haveríamos de nos tornar. O catequista cataclísmico não fumava. Também não bebia. Não fazia nada a não ser dizer-nos que haveríamos de ser pó. E tossia muito lançando perdigotos azulados sobre o meu horizonte de observação.

Foi esta questão do pó e dos perdigotos que me empurrou definitivamente para a engenharia. De um ponto de vista puramente mecânico a transcendência e o pó estão muito próximos. E eu tinha uma certa tendência para os pormenores. Enquanto o catequista falava do divino e do sagrado eu fixava os olhos nos finos raios de luz que me passavam em frente ao nariz e observava os pontinhos de pó que se moviam como peixes num aquário.

Dividir um grão de pó ao meio parecia-me, já então, uma façanha científica a meio caminho entre a 'performance' artística e o êxtase religioso. "Meio grão de pó é ainda um grão de pó" - pensava eu enquanto elaborava uma trama maquiavélica capaz de dar ao pó o estatuto de sexto ou sétimo estado da matéria - "onde terminará isto?". Algo que cortado ao meio é ainda ele próprio desafia as leis da conservação, as leis do movimento e, quiçá, a lei do aborto.

Mas tudo na vida tem um preço. No meu caso, não sei o que veio primeiro se a vocação, se a alergia.

Esta casa onde agora venho ocasionalmente para uma manutenção aligeirada foi sempre uma espécie de paraíso do pó. A ideia de que tudo se transforma em pó tem aqui o seu paradigma. Os granulos infinitesimais que cobrem os chão, os móveis, todos os objectos residentes, parecem surgir do nada; materializam-se para encher sucessivos sacos de aspirador. Em criança a casa era uma sinfonia de espirros e agora começo a espirrar a trinta quilómetros daqui. Os médicos dizem que é uma alergia psicológica o que dá um certo orgulho, principalmente depois que fiz a pós-graduação em pós modernos. Sem falsa modéstia, sou internacionalmente conhecido como a maior autoridade em pós. O doutoramento, que estou a preparar, vai ser sobre pós tits - pós que resultam de uma interacção humana com a realidade, quando a memória começa a desfazer-se.

O meu pai continua a chamar a este lugar, com o azedume habitual, a casa do pó, ignorando a designação original - 'Silly cactus' - enigmático nome dado por um antepassado Centelha, de origem irlandesa, que veio para cá durante as invasões francesas.

Começa a ser difícil escrever. O bico da esferográfica está cheio de pó e a tinta não flui, o meu nariz está inflamado e já não consigo ter os olhos abertos com tanta comichão. Não fora o pó e teria sido um escritor famoso.


Lino Centelha

Óculos dever


Dia propício para começar àpostar aqui no blogue. O eclipse inspirou-me. Ia para o trabalho, começou a anoitecer e zás, meti os óculos do Público em frente à câmara e apanhei o sol a mexer-se. Depois voltei a pôr os óculos. Não via rigorosamente nada. A não ser quando olhava para o sol. E estava bastante nervoso. É o meu primeiro eclipse anelar.

É um bocado difícil conduzir assim, o que me fez chegar atrasado ao trabalho. Mas fiz como dizia no jornal: entre as nove e as onze, enquanto durou o eclipse, não tirei os óculos. Só os tirei para a fotografia mas mantive-me de olhos bem fechados.

Foi um dia positivo. Para manter a produtividade trabalhei mais duas horas à tarde. Descobri que o patrão tem rosto humano quando uso aqueles óculos. E a menina Graciete não usa nada debaixo da camisola. Levei um estalo mas valeu a pena.

Dizem que agora vai demorar uma série de anos até haver outro eclipse assim. Eu não concordo. O governo devia fomentar estas coisas. Os incêndios e a seca são muito menos populares. E os óculos nem são muito caros. E até oferecem um jornal com eles.

Até amanhã. Tenho que ir dormir que sinto uma sombra no olho direito.



Lino Centelha

© Dias que boam

Wednesday, August 17, 2005

Maus pais

Se procurarmos com a devida persistência, encontramos sempre uma relação causa-efeito entre dois acontecimentos separados no tempo mesmo que aparentemente não tenham nada a ver um com o outro. Encontrada essa relação é quase imediato deduzir uma fórmula matemática que descreve o fenómeno e a partir daí temos uma descrição que permite com toda a exactidão fazer previsões sobre o futuro das diversas entidades envolvidas.

As transformações de Lorentz permitem, já ao nível da relatividade restrita, justificar a dilatação do tempo quando se anda de baloiço. Talvez fosse um pouco exagerado passar meia hora para uma hora mas talvez eu não tivesse na altura a instrumentação adequada. Recordemos que éramos ainda crianças. E medir tempos com precisão é um assunto que envolve ainda hoje grandes polémicas entre os especialistas.

Quando eu disse à minha mãe que andava de baloiço com a Helena estava, evidentemente, a dizer a verdade. Embora eu tenha que reconhecer que ela não merecia. Foi muito penoso para mim terem chamado os meus pais à escola. A Helena também não gostou. Nunca se tinha falado num caso daqueles: pais chamados à escola por mau comportamento. Nunca se percebeu muito bem o que é que eles tinham feito de errado. A Helena achava que eram eles que tinham andado a rir-se e a atirar pedradas. O que para uns pais não fica nada bem. Mas eu acho que eles fizeram qualquer coisa mais grave. Talvez fossem actividades políticas ilícitas. O meu pai não era do Benfica e isso dava sempre problemas.

Depois disso a Helena deixou de ir à escola e eu passei a ter mais tempo para a matemática.


Lino Centelha

Wednesday, July 20, 2005

Dia zero

Ainda não é hoje que vou começar o meu diário. Talvez amanhã se me passar esta terrível dor de cabeça. De qualquer maneira não é aqui que vou começar mas nos dias que voam. Não percebo o que querem dizer com dias que voam. Nunca vi dias a voarem. Os dias não são aves. Mas não vou desperdiçar a oportunidade de escrever num bló com muita audiência.